2 Samuel 11:9-17 – Urias prefere dormir com os guardas de Davi, do que com Bate-seba!


2 Samuel 11:9-17 - Urias prefere dormir com os guardas de Davi, do que com Bate-seba!

Apesar de muito tempo distante da esposa, Urias não segue o conselho de Davi e prefere dormir com os guardas de Davi, do que com Bate-seba, Sua consciência não lhe permitiu curtir uns dias de folga, enquanto suas amigos davam suas vidas numa guerra.

Urias prefere dormir com os guardas

V:9,10. Vimos no estudo anterior que Davi tem espias vigiando Urias como se ele fosse um inimigo. À primeira vista, eles sabiam da intenção de Davi: que Urias fosse para casa e dormisse com sua esposa. 

Se não conheciam todos detalhes do que aconteceu entre Davi e Bate-Seba (o que é difícil de acreditar) e de sua intenção com a visita de Urias, com certeza sabiam que algo fora do normal estava acontecendo no palácio. De uma forma ou de outra, Davi estava tornando esses servos espias em co-conspiradores com ele.

Como também vimos anteriormente, Davi estava congratulando-se e rindo sozinho em seu terraço, quando um de seus servos de confiança apareceu com uma notícia surpreendente:

— Majestade, o heteu não foi pra casa.

— COMO NÃO FOI?!

—  Ele preferiu dormir com os guardas, nas portas do palácio.

— Eu não acredito! Era só o que me faltava! Será que ficou besta? Prefere dormir com barbado do que com sua esposa? Amanhã logo cedo, traga-o aqui, quero ter uma palavrinha com esse Urias.

— Sim senhor.

Pronto, estava arruinado o andar tranquilo e ocioso de Davi pelo terraço. Agora não dormiria mais tranquilamente e passaria boa parte da madrugada remoendo-se.

— O que aquele heteu está pensando da vida? Tinha um dia inteiro de folga e resolve usufruí-lo de que forma? Dormir com os guardas? amanhã ele me paga!

Mas isso seria esclarecido no dia seguinte.

Davi bravo por Urias não dormir com Bate-seba

V: 11. Então, quando amanheceu, Urias recebeu o recado do rei, lavou o rosto e subiu para a sala do trono. Dessa vez, o rei se apresentou menos simpático e mais impaciente:

— Urias, o que está acontecendo rapaz? Porque foi dormir com os guardas e não com sua esposa? Você não veio de uma longa jornada? Vai me dizer que deixou sua esposa sozinha?

Urias compreende claramente que o que antes Davi apenas insinuou, ou seja, que fosse para a cama com sua esposa. Agora, Davi está dizendo e até mesmo ordenando que ele o faça. Humildemente, mas com firmeza, Urias se recusa.

A seguinte resposta de Urias ao seu comandante chefe é uma repreensão tão contundente, quanto a que Davi vai receber de Natã no capítulo seguinte: 

Urias responde porque não foi dormir com Bate-seba

— Majestade… Os homens de Israel estão longe, na frente de batalha. A Arca do Acordo está lá numa tenda, e Joabe e os outros comandantes dormem ao relento. Como é que eu ia ter coragem de ir pra minha casa, comer, beber, deitar com minha mulher? Não seria certo, majestade! Tão certo como tu vives e como vive a tua alma, não farei tal coisa majestade.

Isso mostra que Urias tinha uma paixão pela glória de Deus, mesmo sendo um hitita e não um judeu nativo. Ele era um verdadeiro “jogador de equipe” que não queria desfrutar do conforto de casa, enquanto seus companheiros soldados enfrentassem dificuldades no campo de batalha.

“Davi esperava e esperava que Urias se mostrasse como ele; ao contrário, ele provou ser um homem íntegro, cuja primeira lealdade foi aos interesses do rei e não ao seu próprio prazer. ” (Baldwin)

Urias era soldado exemplar. Ele só se afastou de seus companheiros de batalha, porque foi chamado à presença do rei.

Nesse sentido, sendo um servo fiel, não desfrutaria de uma noite a sós com sua esposa, enquanto seus companheiros morriam em batalha; por isso, se juntou a àqueles que guardavam a vida do rei. 

Dessa forma, ele pode servi-lo em Jerusalém; por isso, preferiu ficar com os guardiões do rei, em vez de ir para casa. 

A ironia é avassaladora. O soldado leal passa a noite guardando a vida do rei, que lhe tomou a esposa durante uma noite e em breve lhe tomará a vida também.

Davi muda seu plano para fazer Urias dormir com com Bate-seba

V:12. Um pouco constrangido com a resposta de Urias, Davi tenta um plano “B”:

— Eu sei, Urias. Você é um homem muito correto.

— Obrigado, majestade.

— Eu quero que você fique por aqui hoje. Amanhã eu o mando de volta para Rabá.

— Como quiser, meu senhor.

— E vai jantar comigo hoje também.

— Sim vossa majestade.

— Tá, tá! Dispensado.

Davi está ficando desesperado. Ele sequer cogita a possibilidade de Urias recusar sua nova oferta. Urias fala com tanta convicção que Davi sabe que ele não infringirá seu dever como soldado se estiver de posse de suas plenas faculdades mentais. 

Por isso, Davi faz uma última modificação em seu plano original. Vai embebedar Urias e fazê-lo ir para a cama com a esposa, nem que seja podre de bêbado. Afinal, as pessoas fazem coisas quando estão bêbadas, que não fariam quando sóbrias. Isso, com certeza, fará o plano de Davi dar certo.

Davi embriaga Urias

V: 13. Deve ter sido grande apreensão de Urias ao se juntar a Davi para jantar nessa última noite em Jerusalém. 

Enfim, o jantar se inicia e Davi começa a comer, beber e não aceitará não como resposta quando oferecer comida e bebida a Urias. 

Durante todo o jantar, Davi não deixou que o copo de Urias ficasse vazio nem por um instante. O rei pensava que, embriagado, o soldado perderia um pouco daquela inocência e resolveria de uma vez por todas, sua vida, a da mulher e a do rei. 

Isso até que funciona, pois Davi se assegurou de que ele tivesse álcool o suficiente no sangue para ficar muito bêbado. E, quando Urias chegou nesse estado, Davi o mandou para casa a fim de “recuperar-se” na sua própria cama, é claro. 

No entanto, mesmo bêbado, Urias decide não violar sua consciência. Ou seja, mesmo cheio de álcool, o heteu foi dormir novamente adivinha com quem? Isso mesmo, com os guardas. Davi está encrencado.

Davi esperava que embriagar Urias, enfraquecesse sua determinação de se identificar com seus companheiros de tropa. No entanto, Urias não foi para sua casa, recusando-se a apreciar o que seus companheiros soldados não podiam, enquanto a batalha ainda ocorria.

Davi deve ter passado mais uma noite angustiante, vendo que até mesmo bêbado, Urias é um homem melhor do que ele. 

Por isso, de manhã bem cedo, ele resolve colocar em prática seu plano “C”. Escreve uma carta para Joabe, a qual servirá como sentença de morte para Urias.

Em seguida, mandou chamar Urias pela última vez e com cara de poucos amigos fala curto e grosso:

— Urias, agora você pode voltar para Rabá.

— Obrigado majestade! Estou muito preocupados com meus companheiros!

Davi manda matar Urias

V:14,15. Urias despediu-se e tomou o caminho de volta para Rabá, feliz da vida. Afinal, havia partilhado da mesa do rei e este lhe confiou uma importante mensagem para seu general Joabe. 

Além do mais, sua majestade demonstrou real preocupação com ele, insistindo para que descansasse em sua própria casa. Sim, o heteu estava muito feliz em poder ajudar seus amigos. 

Imagino se Urias em momento algum pensou em dar uma espiada na carta que levava enrolada nas mãos, presa por um barbante e com o selo real. 

Caso o fizesse, ficaria muito decepcionado e talvez daria um jeito de desviar seu caminho e nunca mais aparecer em Rabá nem em Israel. Mas Urias era muito íntegro para até para fazer alimentar sua curiosidade.

A mensagem de Davi para Joabe era breve e clara:

Joabe,
Urias deve ser posicionado bem na linha de frente, onde a luta estiver mais sangrenta. Quando ele estiver no lugar certo, retire-se com seus homens e deixe que ele seja abandonado e assim morra.
Att. 
Rei Davi

Esse ato de traição por parte de Davi foi extremamente desprezível, pois ele até enviou a carta pela mão de Urias, a quem ele ordenara que fosse morto. 

Davi confiou tanto na integridade de Urias que fez dele o mensageiro involuntário de sua própria sentença de morte. Parece coisa de cinema.

A lealdade canina de Joabe

V: 16,17. Definitivamente, Davi nunca tinha ido tão longe com o pecado. Provavelmente, até o carniceiro Joabe, deve ter engolido em seco, quando leu a ordem. 

Deveria, pois, mandar um de seus homens para a morte, sem razão aparente? Era demais até para seus parcos escrúpulos morais. 

Mas havia uma lealdade canina de Joabe ao rei: se Davi ordenara que se fizesse, ele o faria e ponto final. 

Joabe deveria colocar Urias na linha de frente, onde a batalha é mais acirrada. O que não seria surpresa para um homem com a coragem e a habilidade de Urias. 

Joabe deveria atacar e então recuar, de forma que Urias se tornasse um alvo fácil para os amonitas, garantindo assim a sua morte. 

Ao dar essa ordem a Joabe, Davi o torna cúmplice de sua conspiração, fazendo-o partilhar a culpa pelo sangue de Urias.

Dessa forma, o pecado de Davi continua a envolver cada vez mais pessoas, levando-os a pecados cada vez maiores.

A partir de então, o general observou bem a cidade e enviou Urias para um lugar onde sabia que o exército inimigo era mais forte. 

Consecutivamente, as tropas inimigas saíram da cidade para enfrentar o exército de Joabe. 

A morte de Urias

No entanto, sua lealdade parava por aí; Pois, Joabe era um guerreiro e um comandante, ou seja, não ia retirar-se vergonhosamente de uma batalha, só para satisfazer um capricho de seu rei. 

Então, fez frente ao ataque para ver se matava alguns inimigos, porém, muitos de seus oficiais foram mortos na desnecessária batalha. Entre os mortos estava Urias, conforme o planejado.

Davi nem de longe se parecia com aquele servo fiel dos tempos do rei Saul, quando temia em matar Saul, enquanto este rei perverso o queria morto. 

Mas tornando-se agora também rei, Davi basicamente mata seu servo mais fiel e obediente. Quanta diferença de caráter numa mesma pessoa.

A estrada descendente do pecado

Já vimos que um pecado sempre leva a outro e, uma vez que um pecador embarca nessa estrada descendente, não há limites para o número dos pecados que serão cometidos.

Se não for imediatamente confrontado, inevitavelmente um pecado pode seguir um curso miserável. 

Davi concedeu seus desejos sensuais por anos e ignorou as advertências de Deus e as formas de fuga. 

Ele permitiu que a tentação se transformasse em luxúria e luxúria em adultério. 

Quando as consequências de seu adultério ameaçaram expor seu pecado, ele o cobriu primeiro com engano e depois com assassinato. 

Satanás nunca poderia tentar Davi com todo o pacote de pecados de uma só vez, todavia, o enganou fase por fase.

A contradição do pecado de Davi com Urias

O caro leitor lembra quando Davi condenou Joabe e o amaldiçoou por ele ter derramado o sangue inocente de Abner?

Agora, o mesmo Davi (bem, não exatamente o mesmo) usa Joabe para matar Urias e tirá-lo do seu caminho. Ou seja, um assassinato mais cruel e covarde do que o de Abner.

Veja quanta contradição; Joabe não era um amigo de Davi, mas momentaneamente se torna seu amigo, ou pelo menos, aliado. Por outro lado, um outro inimigo de Davi (os amonitas), se tornam agora seus aliados (pois deram o golpe fatal que matou Urias). 

Nada disso faz sentido. Ao passo que, o servo leal de Davi, Urias, é condenado à morte como se fosse o inimigo. 

Além disso, não só Urias é morto por causa do pecado de Davi, mas também muitos outros guerreiros israelitas. Eles precisaram ser sacrificados para encobrir o assassinato de Urias. 

Sem dúvida alguma, este é o ponto mais baixo da vida moral e espiritual de Davi, o homem segundo o coração de Deus.

O pecado é como uma bola de neve

É impressionante como foi rápida a queda de Davi em um único capítulo. Definitivamente, quando estamos longe da graça providente de Deus, podemos cair bem fundo e bem rápido. Que a trágica experiência de Davi sempre nos relembre disso.

Ou seja, o pecado é como uma bola de neve. O pecado não é estanque, não é estático. Ele cresce. Veja a sua progressão em nosso texto:

O pecado de Davi começa quando ele deixa de agir como soldado imparável e vira um dorminhoco, que fica na cama até tarde. Logo depois, seu pecado vai do adultério ao assassinato, num piscar de olhos.

Ele começa discretamente, mas, à medida que a história se desenrola, cada vez mais, pessoas tomam conhecimento dele e pior, cada vez mais pessoas se tornam participantes dele. É como uma bola de neve descendo uma montanha e engolindo todos que estão pelo caminho.

O pecado de Davi inicialmente se expressa quando ele toma a esposa de outro homem; depois, quando tira a vida desse homem e, junto com sua vida, a de uma porção de homens que precisam morrer para que sua morte seja verossímil.

O pecado de Davi desabrocha de modo a transformar um amigo leal e verdadeiro (Urias) em inimigo. Enquanto, os verdadeiros inimigos (os amonitas e, em certo sentido, Joabe) são transformados em aliados.

Aprendendo com os erros dos outros

Alguns personagens bíblicos talvez nos façam perguntar se eles realmente foram crentes em Deus, tais como Balaão, Sansão ou Saul. Por outro lado, com relação a Davi, não nos fazemos tais perguntas.

Pois ele não é apenas um crente é reconhecido, como um crente modelo. Sempre lembramos dos seus grandes feitos. Na Bíblia, ele estabelece o padrão, pois é um homem segundo o coração de Deus.

No entanto, esse homem, apesar de crer em Deus, apesar de momentos espirituais incríveis e de seus belos salmos, cai profundamente em pecado. Então, podemos concluir; oras, se Davi pode cair, nós também podemos. Contudo, é exatamente sobre isso que Paulo nos adverte:

“Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.” (I Coríntios 10:11-12)

Precisamos aprender com os erros e acertos daqueles no qual, a misericórdia do Senhor alcançou. Não foi a toa, que Deus fez questão de não encobrir, as falhas dos nenhum dos seus escolhidos, desde Adão, como também, Moisés, Abraão, Isaque, Jacó, Davi, entre tantos outros.

Em Cristo


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