Antes de continuar
As oliveiras milenares de Israel não são apenas árvores antigas. Elas atravessaram impérios, guerras e a destruição do Templo, permanecendo vivas enquanto tudo ao redor mudou. Neste artigo, a oliveira é observada não como paisagem, mas como símbolo bíblico de aliança, permanência e renovação — uma imagem que ajuda a entender como o texto bíblico pensa o tempo, a perda e aquilo que resiste.
Em Israel, algumas oliveiras continuam vivas depois de mais de dois mil anos. Elas atravessaram guerras, impérios, destruições e reconstruções. Viram Jerusalém mudar de mãos, o Templo cair, gerações desaparecerem. E ainda assim permanecem ali, enraizadas, produzindo brotos novos. A pergunta inevitável é: por que justamente a oliveira ocupa um lugar tão central no imaginário bíblico?
Essa não é apenas uma curiosidade botânica. É uma questão de linguagem, símbolo e memória.
Árvores que atravessam a história
As oliveiras mais antigas de Israel não impressionam pela altura ou pela aparência. Muitas são tortas, ocas, com troncos rachados e retorcidos. À primeira vista, parecem árvores cansadas. Mas é exatamente aí que está o ponto.
A oliveira não sobrevive por causa do tronco. Ela sobrevive por causa da raiz.
Mesmo quando o tronco principal é cortado, queimado ou destruído, novos brotos surgem ao redor. A árvore “renasce” a partir do que estava invisível. Isso não é poesia moderna. É um dado conhecido no mundo antigo — e profundamente incorporado à linguagem bíblica.
A oliveira no mundo bíblico
No contexto do antigo Oriente Próximo, a oliveira não era apenas uma árvore útil. Ela era estratégica. Dela vinham o óleo para alimentação, iluminação, rituais, unção e cuidados médicos. Uma oliveira levava anos para produzir plenamente, mas depois podia sustentar gerações.
Por isso, quando os textos bíblicos falam de oliveiras, não estão descrevendo paisagem. Estão falando de continuidade, herança e permanência.
O Salmo 52 descreve o justo como “oliveira verdejante na casa de Deus”. Jeremias chama Israel de “oliveira verde, formosa de belos frutos”. Em ambos os casos, a imagem não aponta para força militar nem poder político, mas para algo mais silencioso: a capacidade de permanecer enraizado mesmo em tempos de ruptura.
Aliança, não espetáculo
A Bíblia raramente associa a oliveira ao triunfo imediato. Ela aparece ligada à aliança, não ao sucesso visível. A oliveira cresce devagar. Dá frutos depois de muitos anos. Resiste mais do que impressiona.
Isso contrasta com outras imagens de poder usadas no mundo antigo, como o cedro — alto, imponente, associado a reinos e palácios. O cedro cai de uma vez quando é derrubado. A oliveira não. Ela se recompõe.
Essa diferença é teológica e simbólica. O texto bíblico insiste que aquilo que sustenta o povo não é a aparência da força, mas a fidelidade ao que está enraizado.
Mesmo cortada, ela brota
Um dos detalhes mais significativos — e menos explorados — é que a oliveira sobrevive ao corte. O livro de Jó usa essa imagem de forma explícita: “há esperança para a árvore; se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos”.
Não é um elogio à resiliência genérica. É uma observação concreta do mundo natural transformada em linguagem simbólica. O texto não nega a destruição. Ele a reconhece. Mas afirma que ela não é o fim.
Essa imagem ganha peso quando lembramos quantas vezes o povo ligado a essa terra foi conquistado, exilado e disperso. A metáfora não promete invulnerabilidade. Promete continuidade.
O Templo caiu. As oliveiras ficaram.
Quando o Segundo Templo de Jerusalém foi destruído no ano 70, o centro religioso, político e simbólico do judaísmo entrou em colapso. Para muitos povos antigos, isso significaria o fim da própria identidade.
Mas a tradição bíblica já carregava uma linguagem que não dependia apenas de edifícios. As oliveiras que continuavam ali — inclusive nas encostas do que hoje chamamos de Monte das Oliveiras — tornaram-se testemunhas silenciosas de uma ideia poderosa: estruturas caem, raízes permanecem.
Não por acaso, o monte recebe esse nome. Não é apenas geografia. É memória simbólica.
Por que a oliveira ensina mais do que parece
O texto bíblico não romantiza a oliveira. Ela é descrita como resistente, não como invencível. Ela sofre cortes, pragas, secas. O que a diferencia é que sua vitalidade não depende da parte visível.
Essa lógica atravessa toda a Bíblia:
– a promessa não depende do império
– a aliança não depende do templo
– a vida não depende da aparência
Tudo isso está condensado na imagem de uma árvore que parece velha, mas continua viva.
O erro das leituras apressadas
Leituras modernas costumam transformar a oliveira em metáfora genérica de “paz” ou “esperança”. Isso empobrece o símbolo. Na Bíblia, a oliveira não é um objeto decorativo. Ela carrega uma afirmação incômoda: o que é verdadeiro não se mede pelo impacto imediato, mas pela capacidade de atravessar o tempo.
Ignorar isso leva a uma leitura sentimental, desligada da história real da terra, dos conflitos e das rupturas que moldaram esses textos.
Então, o que as oliveiras milenares realmente dizem?
Resposta direta: elas não “provam” nada por si mesmas. Mas dialogam de forma impressionante com a linguagem bíblica que as escolheu como símbolo.
Elas não prometem que nada será perdido. Prometem que nem tudo se perde.
Elas não anunciam vitória rápida. Anunciam permanência.
Elas não dependem da forma visível. Dependem da raiz.
Quando a Bíblia usa a oliveira para falar de povo, aliança e promessa, ela está apontando para uma ideia que atravessa séculos: o que é sustentado por raízes profundas pode ser ferido, mas não eliminado.
Outras leituras para quem observa os símbolos bíblicos com atenção
Árvores, criaturas e imagens simbólicas atravessam a Bíblia como linguagem, não como decoração. Estes textos ajudam a ampliar esse olhar.
Uma última reflexão
Talvez o fascínio pelas oliveiras milenares de Israel exista porque elas contradizem nossa obsessão pelo imediato. Elas lembram que o tempo não é inimigo do que é verdadeiro. Pelo contrário: é o teste.
Na Bíblia, a oliveira não ensina a brilhar. Ensina a permanecer.
E, às vezes, permanecer é a forma mais silenciosa — e mais poderosa — de atravessar a história.

Eduardo Almeida é um estudioso das Escrituras com longa experiência em ensino e curiosidades bíblicas , apaixonado por explorar os mistérios da Palavra de Deus e compartilhá-los de forma clara e inspiradora.






